Rudi antes de ser bibliotecário um lutador, depois, quando as mamonas acabaram, Rudiarista
A conquista
Os dias passavam e nas idas e vindas ao Nucleo de Consciencia Negra(NCN) eu passava pelos universitários que caminhavam pelas ruas do percurso que fazia até a saída da USP.Tinha muita esperança de me tornar em breve uma daquelas almas que estavam em luta constante para se melhorar e se apoderar de algum conhecimento que fosse útil à sociedade e à própria vida.Sentia porém que a matéria de segundo grau era algo que eu estava reconquistando e só me serviria para o vestibular.
Conduzindo minha Honda Biz e enfrentando o caos do trânsito paulista e o perigo das ruas eu fazia um trajeto longo e perigoso de casa até o trabalho, do trabalho até o NCN e depois do NCN até em casa. Eram 90 km todos os dias rodando no meio dos corredores de carros. Uma preocupação que tinha era diminuir o trajeto que fazia drasticamente pois eu já havia caído três vezes da moto, derrubado por motoristas que distraídos, mudavam de faixa sem olhar no retrovisor.
Algumas aulas do núcleo eram tão boas que eu fixava parte do conteúdo sem precisar mais que o esforço de apenas assisti-las e fazer os exercícios. Outras aulas, não por incompetência dos professores, mas por dificuldade minha de entender as matérias exatas, tinha que estudar muito sozinho e tirar muitas duvidas para poder conquistar o conhecimento que nelas havia contido.
O fim do ano chegou e veio a época de fazer a inscrição no vestibular. Alguns de meus colegas negros e brancos não puderam fazer o vestibular porque não conseguiram isenção e não tiveram os R$ 100,00 exigidos para fazer as provas. Fiquei muito chateado em ver pessoas que comigo “ralaram” o ano inteiro e por um detalhe financeiro não poderiam continuar os estudos.
A prova específica de artes-plásticas, matéria para a qual eu ia prestar vestibular exigia que eu fosse um desenhista, um artista pronto para que a universidade me admitisse. Como segunda opção neste ano do meu segundo vestibular coloquei biblioteconomia por um raciocínio muito simples. A disciplina era ministrada no mesmo prédio de artes plásticas e mais tarde eu poderia conseguir uma transferência para o curso de artes plásticas. Eu não conhecia o ramo mas gostava de ler e isto me pareceu uma boa justificativa para suportar o que viesse no menu das leituras e matérias requeridas até que eu pudesse obter a transferência. No ano anterior eu estudara em casa e fizera 51 pontos o que não foi suficiente para passar na primeira fase. Em meu primeiro vestibular a segunda opção havia sido psicologia. Neste ano fiz 52 pontos mas os pontos que o ENEM acrescentou me favoreceu o suficiente para que eu fosse para a segunda fase. Tive sorte e por pouco não passaria mais um ano correndo atrás do prejuízo.Deixei física e matemática para resolver por ultimo e tive que “chutar” tudo em física por causa do tempo que não seria mais suficiente para completar a prova tentando utilizar meus parcos conhecimentos da matéria. Gabaritei inglês, acertei a maioria das questões de português, historia e geografia. Acertei 3 questões de matemática mesmo tendo calculado cada um dos exercícios e 6 de física matéria para a qual utilizei-me de sinais do céu, marcando um X na questão sobre a qual um pequeno inseto caiu do teto.
Na segunda fase caiu historia e português, matérias com as quais tinha mais afinidade. Não achei a prova difícil mas também não fui o primeiro da lista.
Em 2005 conquistei o ingresso na USP embora por um caminho que eu não sabia bem onde iria dar.
Biblio o quê?
Quando, depois de tantos anos consegui entrar na USP, os colegas da empresa em que eu trabalhava e os parentes é claro ficaram muito contentes. Minha esposa que me apoiou neste processo dando-me o tempo que precisei para estudar e me ensinando biologia e outras coisas que eu havia esquecido também se sentiu gratificada com meu ingresso na universidade. A pergunta que não queria calar sempre aparecia quando os amigos vinham me parabenizar pelo feito.
---Que faculdade você está fazendo?
---Biblioteconomia, eu respondia baixo e desanimadamente...
Ai vinha a célebre pergunta:
---Biblio o quê?
Meus parentes e amigos, que não são na sua maioria usuários de bibliotecas e que não sabem nem para que serve uma biblioteca muito menos entendem a minha “escolha” .
Ao entrar para o curso de biblioteconomia eu fui conhecendo as facetas desta disciplina e entendendo que tinha mais a ver com o que eu fazia antes de entrar na universidade do que eu imaginava. Eu era consultor de informática e, junto com uma equipe, tinha a função de implantar sistemas ERP nas empresas que compravam este serviço da empresa em que eu trabalhava. Minha função era a de testar programas com a visão do usuário e detectar possíveis falhas. Depois de testar cada programa eu deveria fazer o manual para o usuário e em seguida deveria ensina-lo a utilizar o programa. Um sistema ERP é composto de vários programas ou módulos e funciona em conjunto com um banco de dados. Os bancos de dados são construídos segundo uma determinada arquitetura para atender as demandas do sistema e do usuário. Na biblioteconomia também aprendemos a construir bancos de dados e mais do que isto a retirarmos deles as informações necessárias para uma determinada pesquisa. As questões que envolvem a arquitetura da informação na biblioteconomia também estão presentes na tecnologia da informação e portanto existem várias semelhanças entre estes dois campos, um de onde eu vinha e outro, onde estou agora.
Ainda não me sinto confortável em dizer que sou bibliotecário a quem pergunta pois esta palavra vai sempre remeter o ouvinte à um lugar cheio de livros empoeirados e a um profissional conformado com a mediocridade. Hoje sei que isto não é verdade e que posso ser um bibliotecário ativo na sociedade em que vivo, mas infelizmente nosso trabalho em bibliotecas é silencioso e recluso na maioria das vezes. Se ouvem poucos relatos de bibliotecários que modificam a vida de seus usuários de forma significativa ao ponto de virarem lendas ou heróis. Mas isto pode ocorrer com outras profissões também. Com o tempo decidi que iria utilizar minha intuição para encontrar uma função dentro da biblioteconomia que me faça feliz. Hoje tenho convicção em dizer que não busco na profissão em que vou exercer a riqueza mas sim a realização. Seja ela profissional ou pessoal. Creio que devemos adquirir a competência do “ser” e o “ter” pode vir a reboque ou não, depende do interesse e da busca de cada um.
O texto a seguir conta um pouco mais desta minha historia até chegar no ponto em que estou. Ele faz parte de um trabalho que fiz sobre linguagens documentárias.
“Quando estava fazendo o curso pré-vestibular fiquei impressionado com o tanto de informação a ser absorvido e transformado em conhecimento que estavam dentro dos limites que cercam a matéria do segundo grau. Apesar de ter na época 40 anos e, portanto, de ter passado por vários fatos históricos como mandatos de vários presidentes, greves, planos econômicos e movimentos da sociedade brasileira, diante da matéria “história”, por exemplo, eu me senti um ser minúsculo quando vi o quanto eu não sabia e ainda tinha que estudar. A historia ao menos na perspectiva do segundo grau, mesmo que contada por diferentes pontos de vista, não muda quando não tratamos da atualidade, mas matérias como biologia, química e principalmente geografia vão tendo as realidades contidas mudadas a cada dia pelas novas descobertas ou as novas conquistas. Ao entrar para a universidade senti já nos primeiros semestres que o conhecimento que existe tem que ser selecionado antes de ser absorvido pois mesmo que eu tentasse ficar dia e noite lendo tudo o quanto era interessante não conseguiria domina-lo todo sobre um determinado assunto. Mas até chegar a esta conclusão não nego que fui acometido de um grande desespero informacional por ver a avalanche de informações que existe disponível tanto no mundo virtual como no físico. Conversando com alguns professores fui aos poucos entendendo que não é vergonha alguma admitir-me ignorante em muitos aspectos e que minhas limitações de absorção deveriam me ensinar a fazer a seleção das coisas que me ajudariam a melhorar meu estado inicial de ignorância diante da gigantesca onda.”
Depois que entrei na biblioteconomia sempre imaginava um jeito de ajudar aqueles irmãozinhos que ficaram para traz lá no núcleo tentando entrar nas boas graças da universidade publica. No início do terceiro ano comecei a conversar com um dos lideres do NCN para ver a possibilidade de transformar a sala de livros que eu havia deixado em uma biblioteca. A recepção desta idéia foi muito boa e Amadou, um dos coordenadores, conversou com a equipe que abriu as portas para que levássemos nosso conhecimento e pudéssemos transformar o ambiente em uma biblioteca funcional.
Parte braçal, a mais fácil?
Chamei dois outros alunos de minha classe, a saber, Abraão e Daniel para começarmos os trabalhos. Sugerimos demolir uma parede divisória e transformar a pequena sala de livros em uma sala mais ampla. Removemos da sala tudo o que nela havia deixando espaço livre para o trabalho. Derrubamos a divisória com o cuidado necessário para não haver posteriores problemas na estrutura. Quando chegou a hora de pintarmos a sala deparamos com o primeiro impasse. Que cor deveríamos escolher para uma biblioteca? Que cor seria mais adequada e agradável? Tínhamos que decidir em pouco tempo afinal havia uma certa pressa de que a pintura e todo o resto viesse a se concretizar. Decidimos tentar copiar a cor com a qual havia sido pintada a parede da sala de aula do cursinho. Era uma cor pastel tendendo do areia para o bege. Compramos a tinta branca e as bisnagas que o catalogo indicava que fariam cor semelhante. Ao invés da cor requerida obtivemos uma cor amarela ou ocre claro o que já pode ter se constituído nosso primeiro erro. Mas é ai que a prática se alia á pesquisa e vamos descobrir o que tem por traz de nossas escolhas.
As cores
A escolha da cor tinha que ser feita. Estávamos eu, o Abraão e o Daniel prestes a ir á casa de materiais de construção para comprar a tinta e tínhamos que decidir qual seria a cor da biblioteca. Muitas coisas quando se vai iniciar os trabalhos de uma biblioteca não são planejadas com o devido tempo simplesmente porque há uma certa urgência de colocar os serviços em funcionamento. Para dizer a verdade nos utilizamos de conhecimentos teóricos anteriores para chegar a conclusão de que as cores não deviam ser como as do Macdonalds que incitam a fome no sujeito e sensação de calor e depois que ele come a famigerada comida “engordiet” tem vontade de sair correndo do local pois a saturação das cores doambiente o enjoam. A cor que eu desejava para a biblioteca e que todos concordaram era uma cor pastel que poderia ser areia, bege clarinho ou até flamingo. O salão foi pintado com uma cor assim e pareceu-nos o ideal. Quando chegamos ao deposito de tintas ocorreu que havia uma tinta em promoção e uma recomendação de que gastássemos pouco com compra. Optamos pela promoção que nos jogava mais um problema nas mãos, a tinta era branca e teríamos que fazer a cor “na unha”. Olhei a tabela que dizia quantas bisnagas eram necessárias a cada cinco litros para produzir areia. Indicaram, pelos meus cálculos, 4 bisnagas ocre em 20 litros de tinta e foi o que compramos. Quando misturamos percebemos que a tinta estava ficando amarela e na terceira bisnaga paramos de adicionar corante porque achamos que o ocre ia predominar. Ficou um amarelo não muito claro e nem muito chamativo. Pintamos os vitraux com tinta óleo marfim que era parecida com a cor que fizemos para as paredes. Depois de um tempo tive a oportunidade de ler algumas coisas sobre as cores no ambiente de convivência e descobri o seguinte sobre o amarelo:
Amarelo: cor quente, estimulante, de vivacidade e luminosidade. Tem elevado índice de reflexão e sugere proximidade. Se usado em excesso pode se tornar monótono e cansativo. Boa para ambientes onde se exija concentração pois atua no sistema nervoso central e é utilizada terapeuticamente para evitar depressão e estado de angustia.
( O uso da cor no ambiente de trabalho: uma ergonomia da percepção – Azevedo, Maria de Fátima Mendes de ; Santos, Michelle Steiner dos; Oliveira, Rúbia de – Universidade Federal de santa Catarina) ver link
Quando citamos um trabalho muitas vezes incorremos no erro de não esmiuçar suas premissas e aceitar aquilo como uma verdade sem nos colocarmos, aqui eu vou fazer, dentro daquilo que puder uma junção da teoria com a realidade.
“Cor quente” me parece uma definição que faz com que algo inerte que é o cumprimento de onda da cor percebido pelos olhos e pelo cerebro pratique uma ação que seria a de esquentar. Mas esquentar o que? A retina, cérebro, o que as cores quentes esquentam? E ai começamos a perceber pela frieza das coisas inanimadas como a da parede pintada ou a da tela do artista, que estamos entrando no território das sensações. A cor amarela passa a sensação de quente, calor e portanto, dependendo da situação, se estiver frio conforto e se estiver um tempo quente, incômodo.
“Estimulante” estimular, dar ânimo, bom, sobre este aspecto todas as bibliotecas deveriam ter amarelo nas paredes ou em algum lugar. A leitura, pelo menos a mim, me dá sono. Enfrentar as letras principalmente se for um texto que eu “preciso” ler e não que eu mesmo tenha escolhido ler, me causa muita sonolência. O ambiente da biblioteca é o mais sonífero dos ambientes, itso em minha experiência de vida é claro. Tudo para induzir ao sono. Silêncio e letras incontáveis a frente dos olhos passando. Silencio e a necessidade de ler um determinado texto para um trabalho acadêmico. Silencio e de repente, quando menos se espera ele chega... o sono incontrolável e inimigo de quem tem pouco tempo para estar na biblioteca. Eu resolvi o problema de leituras obrigatórias andando, ou seja, para não dormir lendo certos textos, eu leio andando. Veja que não estou condenando os textos complicados que as vezes temos que ler para entender melhor um determinado assunto. Acho glorioso vencer um destes textos e depois perceber que eu sei algo sobre aquele assunto, que eu apreendi algo do que li. Mas voltando ao amarelo, “quente” já nos remetia a moléculas em movimento, pulando para lá e para cá, vivas, incomodadas e não acomodadas. Quem lê tem que estar incomodado o tempo todo com o que está lendo. Depois de um certo tempo que comecei a ler uma massa maior de letras eu não consigo ler mais nada sem pensar sobre o que estou lendo. Se for um grande apanhado de baboseiras é claro que não vou perder mais meu tempo com aquilo ou se for um manual técnico que eu posso consultar apenas quando tiver duvidas, para que eu leria? Para que eu leria uma lista telefônica?
Estar incomodado em uma certa perspectiva me parece uma boa posição para quem lê. Não falo de estímulos negativos como estar com sede, sono ou fome enquanto está em uma biblioteca lendo, falo de um incomodo intelectual que me faria ler um livro inteiro de política, historia ou religião sem concordar com metade do que eu estivesse lendo. De qualquer forma “estimulante” me parece uma palavra boa para o ambiente da biblioteca, não creio ter errado crucialmente em pintar de amarelo como sei que o faria se pintasse de vermelho ou abóbora ou ainda verde “cheguei”. Eu sei que tem amarelos que incomodam negativamente, mas achei que partindo de bisnagas ocre não iria incomodar tanto e iria dar um toque de criatividade ao ambiente. Em fim, conforme vou descobrindo a influência das cores na psicologia humana a cor das paredes pode mudar assim como nós mudamos a cada momento de nossas vidas.
“Vivacicidade” e ” luminosidad”e são as coisas que buscamos quando temos o objetivo de tornarmos nossa busca pelo conhecimento um objetivo dentro de um ambiente que sem a nossa presença não passaria de um amontoado de letras sobre papeis envelhecidos.
”Tem elevado índice de reflexão e sugere proximidade” a reflexão sobre o que lemos e o sentimento de proximidade com aquilo que estamos vendo na seqüência das letras pelas quais nossos olhos caminham são necessários para que continuemos trilhando o caminho ao qual a leitura nos leva.
“Se usado em excesso pode se tornar monótono e cansativo” aqui fico sem saber o que dizer porque não sei até que pondo a cor das paredes poderiam influenciar no cansaço e na monotonia da leitura mas a atenção e a intenção da busca poderiam ajudar neste ponto.
“ Boa para ambientes onde se exija concentração pois atua no sistema nervoso central e é utilizada terapeuticamente para evitar depressão e estado de angustia.” Esta parte da análise das cores me dá um certo alivio por ter escolhido mesmo que inconcientemente uma cor que poderia ajudar a concentrar e acalmar o leitor de alguma forma.
Toda esta análise porém não pode fugir ao contexto. Meu usuário é uma cópia do que fui quando entrei na salinha de livros. Ele vem de uma escola publica que não deu a devida importância á busca individual pelo conhecimento como forma de transformar a realidade. Os irmãos do NCN mal sabem o poder do dispositivo “biblioteca” e muitos confiam erroneamente nas aulas como o meio de atingir seus objetivos. Tenho a crença, não sei se errada ou certa, de que é o contato com a matéria que estamos estudando é que nos faz aprender de uma forma mais eficaz e não o contato indireto via professor e aula. Em química sabemos que uma das coisas que mais influencia na reação de dois ou mais reagentes é a superfície de contato. Lembro-me de uma experiência feita em aula eletrônica de química que mostrava que se a superfície de contato fosse maior, maior seria a velocidade da reação pretendida. Com a leitura creio que acontece o mesmo. Quanto mais lermos sobre um determinado assunto mais vamos ter chance de apreender o conteúdo.quanto mais fizermos exercícios sobre a matéria melhor para fixar. Em informática sei por experiência que quanto mais testarmos um determinado software mais saberemos como funciona e mais conheceremos as possibilidades oferecidas. Na aviação um piloto que tem mais horas de vôo é mais confiável do que outro que tenha menos. Na leitura creio que ocorre o mesmo. quanto mais tempo dediquemos ao assunto pesquisado mais iremos ver todos os seus aspectos. Só que o usuário que me é hoje apresentado no NCN veio de uma escola que não o ensinou a duvidar e a procurar outras perspectivas sobre os assuntos que estuda que o ajudassem a entender os detalhes daquilo que está estudando. Este usuário aceita qualquer afirmação contida no livro didático como verdadeira. O vestibular cobra apenas a capacidade de reproduzir nos testes o que foi passado pelos livros didáticos. Isto me lembra quando questionei um colega de trabalho que era físico sobre um postulado da física. Eu li numa apostila que, se um enorme e potente ventilador fosse instalado em um barco a velas com o fim de prover o vento para mover a mesma o barco não sairia do lugar. Eu sei que aqui eu entro num território desconhecido e perigoso ao dizer isto, mas fiz uma experiência em casa que me mostrou o contrário. Instalei uma bexiga em um barco improvisado de isopor e quando a enchi de ar e a coloquei assoprando um protótipo de vela o pequeno barco se moveu dentro da pia. Meu colega ficou espantado com o que eu disse e atribuiu o movimento a algum fator que eu não havia controlado na experiência. O que eu quero dizer com isto não é que devamos ser grandes cientistas de pia de cozinha contrariando postulados milenares com experiências de fundo de quintal, mas é que a nossa curiosidade tem que ser aguçada o bastante para, na medida do possível, testarmos o que os postulados dizem antes de sairmos repetindo os mesmos feito papagaios. Vivenciar uma experiência na prática vai nos ensinar mais do que decorar postulados. Se o vestibular quer que repitamos o que está nos livros didáticos, muito bem, mas isto não deve limitar nossa criatividade e não deve calar nossas perguntas diante das realidades que confrontamos.
A pintura das estantes
Deparamos com algumas estantes de metal pintadas em cinza e já montadas e com estantes desmontadas que tinham as cores do núcleo: verde,amarelo, preto e vermelho. As estantes que estavam pintadas em cinza estavam em bom estado de pintura, já as coloridas tinham uma pintura antiga, desgastada e a ferrugem tomava conta de parte delas. O Luis, um dos coordenadores sugeriu que eu devia manter as cores do núcleo nas estantes mas para isto nos depararíamos com um problema, teríamos que renovar a pintura comprando tintas de todas as cores do NCN e a verba era curta. Diante deste impasse, decidi pintar todas de cinza para ter estantes iguais que indicariam uma homogeneidade. Comprei tinta cinza e comecei a pintar as estantes. Neste ponto a Lucia, uma de nossas colegas se propôs a ajudar e a sua ajuda foi relevante. Sem se importar com o cheiro forte da tinta ela foi varias vezes ao núcleo onde passou horas ajudando na pintura das estantes. Haviam oito barras de metal onde se encaixariam as várias estantes e foram todas pintadas. Um par de barras de ferro preso por um parafuso ao meio e com furos nas pontas chanfradas garantiriam a estabilidade para que a estante não caísse para os lados e um problema silencioso que só se mostrou na montagem era a falta de pés. Foram horas intermináveis as da pintura das bandejas que sustentariam os livros. Eram peças de metal oco e de formato quadrado soldadas a chapas laterais. A pintura tinha que ser feita com rolo e pincel pois entre as barras ficava difícil pintar, deu um trabalhão. No final do galão de tinta que comprei para tal fim, notei que já havia bandejas o suficiente para muita estantes. Contando que cada estante tivesse oito bandejas e que cada par de barra com um par de ferros em “X” representasse uma estante, oito barras dariam 4 estantes que multiplicado por oito bandejas daria 32 bandejas. Quando acabou a tinta, chamei o colega Abraão para me ajudar a montar a primeira estante. Foi só então que nos deparamos com a falta dos pés que equilibrariam o conjunto. Notamos que era possível encaixar bandejas dos dois lados das barras, o que explicava um numero maior de bandejas para poucas barras. Até aquele momento eu achava que haveriam mais barras e ferros em “X” em algum lugar do barracão mas, na prática fui entendendo como funcionava a montagem.
Estantes sem pés
Ups, acho que me deparei com um problema sério. Depois de ter aprendido boa parte da teoria batia o primeiro medo de ter estantes vazias e não saber o que fazer em seguida. De agora em diante quando alguém disser que está montando uma biblioteca do zero eu vou desejar boa sorte e ter respeito pela iniciativa da pessoa. Mesmo antes de me deparar com os problemas de administração já tinha outros problemas sérios a resolver. Um dos mais graves era ter que fazer os pés das estantes. Ainda bem que eu não estava sozinho nesta empreitada. O Amadou é engenheiro elétrico e logo encontrou uma solução para o problema. Havia no barracão algumas barras de metal galvanizado que poderiam ser utilizados para tal fim. Esta foi uma oportunidade impar de utilizar uma formula matemática para algo prático e útil. Os suportes seriam triângulos retângulos dos dois lados de cada barra. Tiramos as medidas e notamos que um lado deveria ter aproximadamente 28 cm, pois era aparte na qual parafusaríamos fixando o suporte na barra. Esta era a altura do triângulo. A parte que iria no chão deveria ter o tamanho aproximado da bandeja, ou seja 30 centimetros aproximadamente, para não sobrar para fora de modo que o usuário tropeçasse e teríamos que calcular a hipotenusa deste triangulo. Um outro dado era que cada barra de metal tinha 3 metros e para aproveitarmos bem a barra deveríamos utilizar um metro para cada pé. Dentro destas regras fizemos os cálculos.
A pré-seleção e o drama da escolha
O Abraão e o Roger estão firmes comigo no propósito tanto de aprender mais com a prática na biblioteca como de colocar o dispositivo funcionando. Na sexta feira, 13 de abril discutimos mais um pouco sobre a política da coleção e os critérios de seleção.
Deparamos com um quadro assim:
Apostilas que tem só teoria Apostilas que tem só Exercícios
Uma só disciplina Uma só disciplina
Várias disciplinas Várias disciplinas
O que fazer com isto?
Decisão inicial:
Á princípio poderíamos colocar as que não tivessem espirais e que contivessem um só assunto juntamente com os livros dos assuntos correspondentes.
As apostilas multidisciplinares apenas com exercícios seriam colocadas separadamente das que tivessem só teoria.
Talvez, com o tempo as de exercício poderiam ser distribuídas entre usuários interessados e ficaríamos apenas com as que só tivessem teoria.
Dentro disto ainda, o Roger manifestou uma preocupação de que tínhamos apostilas de vários cursinhos diferentes e que cada um destes cursinhos ensina de um modo diferente. Logo, dentro da divisão de apostilas deveríamos separar por cursinho.
Uma preocupação que tenho é a de que as apostilas tomem muito espaço e que os usuários, como cada um tem sua apostila do cursinho, não iriam utilizar tanto este material. Creio que o único fato pelo qual é válido mater tais apostilas é porque um aluno pode não entender uma aula de sua apostila e querer ler um outro texto do mesmo assunto para complementar o entendimento. Isto eu também creio que vai ser raro já que o tempo dos usuários é curto até para lerem sua própria apostila.
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